“O fato é que eu não sei dividir as pessoas que eu amo. Eu nunca soube mesmo. Meu coração não aceita a triste ideia de perder algo pra alguém, assim tão fácil. É como se eu trancasse tudo com sete chaves, protegendo de todas as formas possíveis e impossíveis. Não suporto a ideia de perdê-las nem que seja por um instante. Egoismo? Não. Eu chamo de cuidado. É tão difícil conseguirmos uma coisa a qual a gente tenha tanto amor que o medo de perdê-la é maior do que qualquer coisa que possa existir. E eu nunca fui de ter coisas assim, que eu pudesse dizer que realmente “são minhas”. As poucas coisas que eu prezo realmente são importantes pra mim. Não são coisas materiais, são pessoas. Pessoas que eu amo e que se tornaram especiais na minha vida. Então, porque perdê-las assim de bandeja pra primeira pessoa que aparece? Não me parece justo. Isso me preocupa bastante, tira meu sono, me desconcentra. E o pior pra mim é perceber que as coisas realmente começam a escapar por entre meus dedos. Não posso mais segurá-las, não posso mais trancá-las em algum lugar distante, onde ninguém possa ter acesso. E é ainda pior quando eu percebo que as pessoas não fazem o mínimo de questão pra impedir que isso aconteça. Já não dão tanta importância pro que pode acontecer com os antigos laços. Tudo o que a gente construiu com tanto cuidado acaba sendo insignificante pra alguém. Foi tudo em vão? E o que me resta fazer? Nada. Apenas aceitar. Reencontrá-las com um sorriso nos lábios que me sirva pra disfarçar a dor. E dói bastante, não é pouco. Mas a gente acaba se acostumando a perder, não? Acho que me acostumei.
“Dias tristes, vontade de fazer nada, só dormir. Dormir porque o mundo dos sonhos é melhor, porque meus desejos valem de algo, dormir porque não há tormentos enquanto sonho, e eu posso tornar tudo realidade.
“E que você sinta vontade de precisar de mim.
“É assim que me sinto maior parte do tempo. Sozinho.
nevou:
há quem não goste
de se esparramar
em um cangote?
deixar o mar inundar a rede
onde a onda dorme
há quem não goste
de massagem
na costas?
deixar o mar lavar a costa
onde a gente se encosta
areia fina gruda na pele
leve ardor dorme na derme
não sai com banho: saudade.
“Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer cousa para eu acordar de novo.
“ta doendo
ta machucando
ta agoniando
ta corroendo
mas parar eu não vou
a vida não para
uma hora tudo se acalma
até as dores.
“Todo poema é feito de ar
apenas:
a mão do poeta
não rasga a madeira
não fere
o metal
a pedra
não tinge de azul
os dedos
quando escreve manhã
ou brisa
ou blusa
de mulher.
O poema
é sem matéria palpável
tudo
o que há nele
é barulho
quando rumoreja
ao sopro da leitura.
Ferreira Gullar (via
nevou)
Meias
incolumo:
Meias verdades
Meias vontades
Meias saudades
Viver pela metade é ilusão
Tire suas meias
Ponha o pé no chão
Augusto Barros